É uma das figuras mais famosas da linha de Cascais. Desde 1965 que dá nome a uma das marisqueiras históricas no País. Eduardo Santos, mais conhecido como o Eduardo das Conquilhas, morreu aos 93 anos, este domingo, 24 de março.
“Hoje o meu e nosso pai deixou-nos. Partiu nos nossos braços, com todo o amor e carinho com que sempre nos deu e recebeu. Partiu em paz sossegado e rodeado de amor da nossa família”, escreveu o filho, Ricardo Santos, nas redes sociais.
A família informou ainda que o restaurante da Parede vai estar fechado nos próximos dias. O funeral está marcado para terça-feira, 26 de março, na Igreja da Parede, a partir das 11 horas.
O restaurante tem, há mais de 50 anos — 59 para sermos precisos —, a mesma gerência. Por vezes, o fundador ainda era visto por lá a acompanhar o serviço e a cumprimentar os clientes. Este é apenas um dos motivos pelos quais se tornou um nome tão acarinhado entre a população local.
Em junho do ano passado, a personalidade foi homenageada através de um mural na Parede. A obra de Mário Belém tem o tamanho de um prédio de três andares, perto do restaurante e da estação de comboios.
“Fora de mim de contente de poder ter tido a oportunidade de embelezar a fachada de um dos locais mais icónicos da minha freguesia (2775)”, disse o artista, por altura da inauguração, fazendo referência ao código postal de Carcavelos, que tem tatuado na pele por ser o sítio onde nasceu e cresceu.

Cliente de longa data do restaurante, Mário Belém garante que não pensou duas vezes em aceitar o convite para transmitir, em cores e traços, as boas memórias que tem das mesas do Eduardo das Conquilhas. Seis dias depois de arrancar a pintura, o novo cartão postal na paisagem da Linha de Cascais ficou concluído.
“É para o avô e para o neto e também para a senhorita”, lê-se. “Marisco fresquíssimo de qualidade superior”; “Como o nosso verde não há igual”; “Desde 1965 com vocês. Um grande bem haja” são as frases escritas no mural. No meio, entre cores vivas e elementos que marcam o icónico espaço de Parede, lá está ele: o rosto de quem tornou o restaurante real.
A criação de um legado
“Aos 11 anos, o meu pai veio para Lisboa para trabalhar. Chegara da Pampilhosa da Serra, para fugir da fome, e para mudar os carris dos elétricos. Mas aquilo era um trabalho muito pesado, muito difícil, e ele acabou por sair”, contou o filho Ricardo Santos, aquando da inauguração do mural. Conhecido como “Ricardo das Conquilhas”, trabalha desde os oito anos sob a orientação do pai, que lhe ensinou, como se lê na obra, que ali é para todos.
Eduardo foi então viver para carvoarias e leitarias, a ajudar as pessoas com o carvão, com os animais e o que mais fosse preciso. Quando tinha 16 anos, já vendia carvão a pé, entre Parede e Sintra. Em 1965, teve oportunidade de adquirir uma loja. Ali, precisamente no número 118 da Rua Capitão Leitão, abriu um espaço que servias cafés e refrigerantes, apenas acompanhados de rissóis e pastéis de bacalhau.
Sim, apesar de ser associado às conquilhas, o empreendedor nem sempre as teve. Só mais tarde, quando uma funcionária sugeriu incluir a especialidade no menu, é que o restaurante passou a servi-las. Eduardo ia buscá-las de transportes públicos ao Mercado da Ribeira. “Só depois é que se seguiram os outros mariscos.”
“Entretanto, o meu pai conheceu uma senhora aqui na Parede que é a minha mãe, a Margarida. Ela também era muito pobre e era criada numa casa. Ao ver a miséria da terra dela [Garganta, em Vila Real], o Eduardo prometeu trazê-los para sul. E foi assim que o negócio cresceu: com a família da minha mãe. O meu pai, assim que pôde, trouxe-os para cá, constituíram família e hoje ainda trabalham todos juntos.”
Quando Ricardo começou a sua carreira na área, o restaurante ainda funcionava onde hoje é a estrutura central do estabelecimento, com cerca de um quarto dos atuais 200 metros quadrados de tamanho. Atualmente, têm viveiros próprios na parte interior, onde centenas de sapateiras se dividem em três tanques abastecidos com água do mar.
À grupeta — que continua a ser “40 a 50 por cento” família — já se juntou a filha de Ricardo, que se prepara para dar continuidade à linhagem dos Conquilhas. “A Joana tem 11 anos e faz de host na porta, a sentar os clientes e a levantar as mesas. Ou seja, faz o mesmo que eu fazia”, diz o pai, orgulhoso.
Uma tarefa que não é nada fácil, principalmente no verão, quando a fila para entrar no restaurante, com capacidade para 200 pessoas, se começa a formar antes do meio-dia. Afinal, todos querem provar as famosas conquilhas à Bulhão Pato (15,90€ a dose) e beber um copo do vinho verde da casa.
“Não fazemos reserva, mas estamos sempre cheios. Tem de ser por ordem de chegada mas, depois de sentar, o serviço é bastante rápido. Temos uma equipa incrível”, garante o responsável.
E o diploma do filho não impediu o senhor Eduardo de continuar a fiscalizar tudo o que ali acontece nos últimos anos de vida. “Vem tomar o pequeno-almoço aqqui, ainda almoça connosco, e lancha. Com 93 anos, está lúcido e está bom. Portanto, recomenda-se, sem nenhuma dorzinha, nem nada. É uma alegria. Trabalhamos todos juntos”, recorda Ricardo.
A seguir, carregue na galeria para conhecer um pouco mais da história do Eduardo das Conquilhas.

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