Há quase dois séculos, Emily Brontë criou “um monstro literário” que o mundo ainda não aprendeu a domar. Quando foi publicado, em 1847, “O Monte dos Vendavais” (“Wuthering Heights”, no original) deixou o público e a crítica horrorizados. Indiferente ao cânone vitoriano tradicional, o romance assinado por Ellis Bell (pseudónimo masculino de Emily Brontë) desafiava todas as convenções.
Longe do romantismo da época, mergulha na crueldade e na vingança, e conta um amor que mais parecia uma maldição do que uma bênção. Considerada uma das obras mais intensas e sombrias da literatura inglesa, é famosa por ser difícil de adaptar, devido à sua estrutura complexa. Normalmente, a segunda parte da narrativa em espelho (focada nos filhos dos protagonistas) é frequentemente ignorada nos filmes.
Ainda assim, este relato de uma obsessão destrutiva que transcende a própria morte é um dos textos mais adaptados da história. Assinada por Emerald Fennell (conhecida por “Promising Young Woman” e “Saltburn”), a versão mais recente estreou esta quinta-feira, 12 de fevereiro. “Um dos filmes mais aguardados do ano” chega às salas de cinema nacionais envolto numa aura de controvérsia, que acompanha o projeto desde o início.
A produção, em particular as “liberdades criativas” de Fennell, tem sido um campo de batalha para os críticos literários (e um paraíso para os tablóides). A avaliar pelas reações polarizadas à nova adaptação, os bastidores parecem quase tão dramáticos quanto a própria narrativa de Brontë. Embora seja considerada por muitos “a maior história de amor da literatura mundial”, o enredo explora a forma como o trauma e a exclusão podem transformar uma paixão avassaladora em algo tóxico. “O Monte dos Vendavais” é, na verdade, um pilar do romance gótico.
A relação de Heathcliff e Catherine “é a prova de que algumas feridas nunca cicatrizam, apenas mudam de figurino”. A narrativa arranca quando a governanta, Nelly Dean, conta a história de Wuthering Heights e a saga de duas gerações das famílias Earnshaw e Linton, ao Senhor Lockwood, o novo inquilino da propriedade.
Tudo começa quando o Senhor Earnshaw traz para casa um órfão de “aparência cigana” chamado Heathcliff. O rapaz e a filha mais velha de Earnshaw, Catherine, acabam por desenvolver uma ligação profunda. No entanto, o filho mais novo, Hindley, detesta o órfão e trata-o com crueldade.
Embora confesse que a sua alma e a de Heathcliff “são apenas uma”, Catherine decide casar-se com o burguês Edgar Linton, admitindo que o verdadeiro alvo da sua paixão é socialmente inferior. Humilhado, Heathcliff desaparece, retornando anos depois; rico, educado e movido por um único propósito: vingar-se de todos que o desprezaram.
As versões cinematográficas desta “fusão de almas que nega a existência individual” são tão variadas quanto os significados do livro: uma história de luta de classes para uns, um conto de fantasmas ou estudo psicológico sobre o trauma infantil e como este gera monstros para outros.
Entre as muitas adaptações anteriores à de Fennell, há três que se destacam. O filme realizado por William Wyler em 1939, cristalizou Heathcliff (Laurence Olivier) como um herói romântico incompreendido. Embora seja considerado “tecnicamente brilhante”, este “O Monte dos Vendavais” comete um “pecado literário” ao subtrair toda a segunda metade do livro. Wyller termina a narrativa com a morte de Catherine (Merle Oberon), transformando uma saga de vingança geracional num melodrama de Hollywood.
Já a versão realizada por Peter Kosminsky em 1992 é frequentemente citada como a mais fiel ao tom sombrio de Brontë. Ralph Fiennes encarna um Heathcliff “verdadeiramente ameaçador e sociopata”, que contrasta com a ingenuidade da Cathy de Juliette Binoche. Além disso, o filme inclui a segunda geração, permitindo que o público veja o plano de vingança completo de Heathcliff.
Em 2011, Andrea Arnold optou por uma abordagem naturalista, com pouca música, e ênfase nas charnecas ventosas do Yorkshire. A escolha de um ator negro (James Howson) para o papel de Heathcliff foi divisiva e muito criticada. A cineasta rebateu as críticas com o desejo de colocar em primeiro plano as questões de racismo e xenofobia que estão implícitas no texto original (Heathcliff é descrito como “um presente do diabo”, “cigano“ e “estrangeiro”).
Decorridos 15 anos, Emerald Fennell apresenta uma versão radicalmente diferente, mas com um novo “elenco da discórdia”. A maior polémica recai sobre a escolha de Jacob Elordi para encarnar Heathcliff, que, no original, é descrito repetidamente como “dark-skinned” (de pele escura), “cigano” e de “origem estrangeira”.
O protagonista “caucasiano e limpo” incendiou as redes sociais, com os puristas a acusarem Fennell de “whitewashing”. Margot Robbie é igualmente alvo de censura: a atriz de 35 anos interpreta Catherine, que, no livro, morre aos 18. Segundo um rumor que corria nos bastidores, a atriz, que também é produtora do filme através da sua empresa LuckyChap e detinha “o controlo criativo total do projeto”, resolveu “ficar com a protagonista”. A decisão não terá agradado aos distribuidores, que queriam “uma atriz mais jovem para atrair a Geração Z”.
Fennell rebate as críticas ao casting argumentando que nunca procurou representar “a verdade história”, mas “uma eletricidade animal entre Elordi e Robbie”. Se as versões anteriores (como a de 1939 ou 1992) tentavam ser retratos de época, a de 2026 podia ser “um editorial de moda gótica”, apontam os detratores.
A nova Catherine de Robbie não é uma jovem confusa e apaixonada; é, nas palavras da própria realizadora, “uma força da natureza que gosta de magoar os outros”. Já o Heathcliff de Elordi “é um galã de 1,90 metros”, que se destaca mais pelos peitorais desenhados do que pela “alma atormentada”. Além disso, a opção por um ator branco “ignora o racismo estrutural, que é o motor da fúria de Heathcliff no livro”, sublinham ativistas e académicos.
Por seu lado, Fennell afirma que procurava alguém com “uma presença física intimidadora, que transcendesse etnias”. Para a realizadora, o mais importante é a química explosiva entre os protagonistas.
Outro dos pontos de ruptura foi a banda sonora. Fennell, que adora ouvir pop em contextos de época (como a voz de Sophie Ellis-Bextor em “Saltburn”) convidou Charli XCX para criar a música do filme. A artista britânica enterrou de vez os violinos e trocou os acordes melancólicos por “uma batida com o ritmo acelerado de dois psicopatas apaixonados”.
Quando alguns vídeos gravados (às escondidas) no set se tornaram virais, o descontentamento atingiu outro patamar. As cenas de dança estilo rave na mansão de Yorkshire deixaram muitos fãs do gótico tradicional horrorizados. Muitos recusam aceitar que a dor, trágica e sombria, tenha sido substituída por uma estética de “festa e hedonismo”, apelidada ironicamente nas redes sociais como “Brat Heights”.
Enquanto uns choravam o “assassinato” do livro, o TikTok transformou o filme num fenómeno, graças à química dos protagonistas e à banda sonora contagiante. Emerald Fennell deitou ainda mais gasolina para a fogueira ao declarar que queria que este filme fosse o “Titanic desta geração”.
O resultado, porém, parece ser tudo menos consensual. Entre as críticas “ao desfile de figurinos de luxo” de Margot Robbie, à banda sonora de Charli XCX, e ao delírio final do suicídio de Heathcliff, “esteticamente belo e explosivo”, surge o pecado capital de Fennell: a aposta no factor choque, em detrimento da substância emocional da narrativa original.
As críticas negativas, como frequentemente acontece, foram “a melhor publicidade que o filme poderia ter” e alavancaram as expectativas de bons resultados nas bilheteiras. No entanto, no Rotten Tomatoes, por exemplo, tem uma avaliação de apenas 65 por cento (em 100).
Embora esta versão de 2026 de “O Monte dos Vendavais” seja considera sobretudo “uma apropriação pop da tragédia de Brontë”, o apelo mantém-se: mesmo 180 anos depois, Heathcliff e Catherine continuam a ser personagens que o mundo ama odiar ou odeia amar.

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