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ROCKWATTLET'S ROCK

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Filme que junta Rose Byrne, A$AP Rocky e Conan O’Brien é uma das estreias da semana

“Se Eu Tivesse Pernas Dava-te um Pontapé” rendeu à atriz a sua primeira nomeação ao Óscar. É uma das favoritas à vitória.

“Um ataque de pânico meticulosamente coreografado”. A comédia dramática de tons hiper-realistas e nervosos de Mary Bronstein, “Se Eu Tivesse Pernas Dava-te um Pontapé” (“If I Had Legs I’d Kick You”), foi uma das surpresas da última edição do Festival de Berlim.

O filme, que rendeu a Rose Byrne o Urso de Prata e a sua primeira nomeação ao Óscar, chega às salas nacionais esta quinta-feira, 19 de fevereiro. A crítica descreve-o como “um retrato geracional sobre o esgotamento, a neurose e a falência das instituições de cuidado”.

À primeira leitura, o título soa a uma ameaça infantil, quase cómica. No entanto, à medida que a narrativa se desenrola, a frase “Se Eu Tivesse Pernas Dava-te um Pontapé”, — proferida num momento de total exaustão — surge como a metáfora perfeita para a “paralisia emocional” da protagonista. 

Linda (Rose Byrne) é uma mulher que, apesar de ter todas as ferramentas intelectuais (é, ironicamente, uma terapeuta), está “emocionalmente amputada”. O título reflete a raiva contida de quem quer reagir ao mundo, mas sente que o chão lhe fugiu debaixo dos pés. É o desejo de desferir um golpe num sistema que a ignora, mesmo quando já não tem forças para se levantar.

A narrativa mergulha no quotidiano asfixiante de Linda. Em teoria, deveria ser a âncora dos que a rodeiam: cuida da filha, que sofre de uma doença misteriosa e debilitante cujos diagnósticos nunca coincidem; gere um grupo de pacientes cujos traumas parecem ecoar os seus; e tenta manter a sanidade perante a ausência física e emocional do marido.

O ponto de ruptura surge após um acontecimento aparentemente mundano: um problema de canalização no apartamento da família. Este pequeno incidente doméstico força Linda e a filha a mudarem-se para “um motel de beira de estrada”. Longe da estabilidade ordenada do seu consultório e da sua casa, a estrutura mental de Linda começa a desintegrar-se. O ambiente do motel, com o seu néon intermitente e paredes finas, serve de espelho à sua desagregação mental.

A história complica-se quando uma das suas pacientes desaparece sem deixar rasto. Em vez de lidar com a situação de forma profissional, Linda mergulha numa busca obsessiva que roça o delírio. A terapeuta começa a cometer erros éticos básicos, atraindo o desprezo até do seu próprio psicólogo, num jogo de espelhos onde quem deveria curar se torna o foco da patologia. 

Mary Bronstein filma este declínio com uma câmara inquieta, captando o frenesim urbano de uma Nova Iorque que não tem tempo para quem abranda. A génese de “Se Eu Tivesse Pernas Dava-te um Pontapé” está profundamente ligada ao movimento indie nova-iorquino. Mary, casada com o colaborador habitual dos irmãos Safdie, Ronald Bronstein, trouxe ao filme a energia visceral que associamos a obras como “Uncut Gems”.

Uma das histórias mais curiosas dos bastidores envolve o processo de casting. Bronstein queria que o filme retratasse uma “realidade crua”, o que a levou a misturar atores veteranos com nomes improváveis da cultura popular. O rapper A$AP Rocky foi escolhido após um encontro fortuito num restaurante, onde a realizadora ficou impressionada com a sua “presença melancólica”. Rocky interpreta um dos pacientes de Linda, e muitas das suas sessões de terapia no filme foram improvisadas, com Rose Byrne a utilizar técnicas reais de psicologia para extrair reações genuínas do artista.

Conan O’Brien foi outra escolha insólita. O conhecido apresentador interpreta o psicólogo de Linda. Durante as filmagens, Conan insistiu em não ler o texto completo das cenas de terapia, para ser genuinamente surpreendido pelas explosões emocionais de Byrne. O resultado é uma dinâmica desconfortável e fria, que retira qualquer glamour à figura do analista.

A produção também enfrentou alguns obstáculos inesperados durante as gravações. Para captar a sensação de claustrofobia, a equipa filmou num motel funcional em Queens durante uma vaga de calor intensa. Rose Byrne terá passado dias sem sair do cenário para manter a sensação de isolamento e desorientação da sua personagem, algo que se reflete na sua aparência cada vez mais frágil e translúcida no ecrã.

“Se Eu Tivesse Pernas Dava-te um Pontapé” é um filme desconfortável porque “nos obriga a olhar para a nossa própria fragilidade”, defende a crítica. “Num mundo onde se espera que sejamos terapeutas de nós próprios e dos outros, Linda é o lembrete de que ninguém é imune ao colapso.” 

O filme de Mary Bronstein “não oferece respostas fáceis nem finais redentores”: apenas a verdade nua de uma mulher que, perante o abismo, decide finalmente gritar. E esta é, segundo a crítica, uma das suas principais qualidades.

Entre as novidades que chegam esta quinta-feira, 19 de fevereiro, às salas de cinema nacionais há também terror, um drama sobre a crise dos refugiados no Mediterrâneo, um “bioepic” com imagens inéditas de Elvis Presley e Albano Jerónimo como um homem assolado pela melancolia de quem sente o seu mundo a fraturar-se.

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