Os livros surgiram de forma natural na vida de Maria João Lopo de Carvalho. Desde miúda, sempre viveu rodeada de histórias, sobretudo por influência do pai, também escritor. Formada em Línguas e Literaturas Modernas pela Universidade Nova de Lisboa, foi professora de português e inglês e também copywriter em publicidade. Apesar do seu percurso profissional eclético, a escrita sempre lhe pareceu um caminho mais do que provável e a decisão de o seguir não surpreendeu. Já com inúmeros bestsellers no currículo, — muitos deles incluídos no Plano Nacional de Leitura —, a autora de 63 anos lançou a 16 de setembro mais um livro.
“O Estoril Não Caiu do Céu” é a biografia romanceada de Fausto de Figueiredo, uma das figuras mais emblemáticas do Estoril. “A escritora faz uma viagem com paragem em muitas estações e apeadeiros: da Beira Alta a Lisboa, de Lisboa aos ‘Estoris’ e daí a Paris, a Biarritz e de novo a Lisboa”, revela a sinopse do romance, editado pela Oficina do Livro, chancela do Grupo Leya. Neste momento, está à venda nas livrarias por 19,71€, com 10 por cento de desconto sobre o preço de capa, 21,90€.
A obra explora a “história devida do génio que veio despertar o País do torpor, dando-lhe um novo horizonte, singular e luminoso”. A New in Cascais esteve à conversa com a escritora, que revelou detalhes sobre o seu percurso no mundo da escrita e a inspiração que a levou a aprofundar e dar a conhecer a vida e obra daquele considerado o “pai do turismo português”.
Natural da freguesia do concelho de Celorico da Beira, Fausto Cardoso de Figueiredo nasceu a 17 de setembro de 1880. Com formação em farmácia, desde cedo que revelou ambições muito além da sua profissão, graças ao interesse pela política e pela modernização do país. Em 1910, mudou-se para o Monte Estoril após o casamento com Clotilde Ferreira do Amaral e chegou a vice-presidente da Câmara de Cascais.
O espírito visionário fez com que transformasse o Estoril numa estância turística de prestígio internacional. Em 1914, apresentou um plano que previa a criação de hotéis, casino, termas, equipamentos culturais e desportivos, lançando as bases do projeto que acabou por mudar a região. Até à sua morte, em 1950, foi um dos responsáveis por transformar a Costa do Sol num dos principais destinos turísticos de Portugal e num refúgio de figuras da realeza europeia no século XX.
Leia a entrevista de Maria João Lopo de Carvalho à New in Cascais.
É uma escritora prolífica, já com mais de 70 livros publicados. Como surgiu a paixão pela escrita?
A minha chegada até à escrita foi por acaso. Quando comecei a escrever romances, era copywriter, e, como tinha muito ritmo, despachava rapidamente o que tinha de fazer. Ou seja, acabava por ter muitos tempos mortos durante horário de trabalho, que tinha obrigatoriamente de cumprir. Por isso, comecei a escrever, uma das colegas reparou e perguntou se podia levar um rascunho para dar a ler a um amigo, que mais tarde descobri ser editor. A resposta foi positiva e, quando o publiquei, foi um sucesso, esteve várias semanas no top dos mais vendidos.

A sua obra é dominada pelo género infanto-juvenil e histórico. Foram escolhas premeditadas?
A minha natureza, enquanto escritora, está nos livros infanto-juvenis, já que é algo que faço naturalmente. Sempre fui uma aluna muito marrona e achava que estas histórias eram demasiado fáceis. Por isso, decidi saltar de uma prancha mais alta, para o romance histórico. O processo foi longo, demorou 14 anos e deu muito trabalho, mas é algo que me traz uma grande satisfação. O primeiro trabalho deste género foi a “Marquesa de Alorna”, em 2011. O meu bisavô comprou a Quinta da Alorna, por isso, não temos qualquer ligação a essa família. No entanto, já estamos com ela há sete gerações. Desde pequenos que sempre ouvimos falar da marquesa e de como era uma mulher à frente do seu tempo, uma feminista. Para uma pessoa que gosta de história e de escrever, tinha aqui os ingredientes perfeitos. O mesmo acaba por se refletir neste novo livro sobre o Estoril. Aliás, “Marquesa de Alorna” foi tão importante que, em 2026, vai estar uma adaptação na RTP e penso que o público vai adorar. Estive presente em quase todos os dias de filmagens e posso dizer que é uma obra de arte.
O que a inspirou a mergulhar na vida de Fausto de Figueiredo?
Quase todos os meus livros estão ligados a casas e com este aconteceu o mesmo. É inspirado na casa da minha avó, no Estoril, onde me refugiava muitas vezes quando queria fugir dos meus pais e onde tinha muitos amigos e vivências. Acabei por me cruzar bastante vezes com Fausto de Figueiredo e comecei a achar que eram demasiadas coincidências. Por isso, tive de escrever a sua história. Na realidade, os meus livros têm uma grande componente biográfica e pouco de romance. Apesar de ser bastante rigorosa, há sempre espaço para errar. Isto não é um livro de história, há uma construção que aligeira o tema. E isto é tudo divertido para mim, ir atrás das pistas e descobrir quem foi Fausto de Figueiredo.
Como foi esse processo de descoberta da sua personagem principal?
Todas as pessoas, tal como Fausto de Figueiredo, têm três dimensões: a pública, que temos de descobrir, analisando várias fontes (que fiz com a ajuda de um investigador); a privada, que conseguimos apurar devido à correspondência com os filhos e a mulher, mas também através das memórias de quem continua vivo e os conheceu pessoalmente; e a secreta, à qual nunca conseguimos aceder verdadeiramente.

No fundo, procuramos humanizar a figura pública, tentamos recriar o homem que era e o espírito que tinha. Para compreender esta última faceta, procurei um psicanalista para me ajudar a conseguir compreendê-lo através das suas ações, da sua personalidade controladora. Ele teve cinco filhos, dois rapazes e três raparigas, por quem se desvanecia de amores. Até descobri uma história caricata: uma delas sofreu uma apendicite, o que fez com que montasse uma sala de operações numa das suas casas, ao saber que os hospitais eram centros de bactérias. E, nessa sala improvisada, fez cirurgias de remoção do apêndice às três filhas. Isto demonstra como é protetor.
Contar a história de Fausto de Figueiredo foi fascinante?
Considero essencial ir além do óbvio, é isso que me apaixona nos livros históricos. É preciso nunca escorregar na falta de rigor histórico, quer seja na linguagem ou maneirismos na altura, mas também juntar todas as peças do puzzle para ser o mais fiel possível à realidade. É comovente como o espírito humano teve a capacidade de construir este Estoril, desde a linha elétrica, trazer o comboio mais luxuoso vindo de Paris e colocar Estoril e Cascais no mapa do mundo. Foi sem dúvida o pai do turismo em Portugal, porque tinha a visão do que esta zona podia ser. É fascinante, sempre que possível, dar asas à realidade, para evitar que a narrativa se torne enfadonha. Neste caso em particular, era necessário acrescentar alguma fantasia e humanizar esta pessoa que existiu e dar-lhe personalidade. Todos os capítulos começam com acontecimentos que efetivamente aconteceram — foi só imaginar a partir dessa certeza.
O processo de escrita demorou quanto tempo?
Raramente escrevo em menos de três anos e, desta vez, respeitei esse prazo porque tinha a ajuda de um investigador, que me facilitou o trabalho. É uma viagem que me ajuda a viver em duas dimensões: a realidade do dia a dia e o que se passa no começo do século XX, uma época fascinante para mim.









