A curiosidade sobre uma das dinastias mais poderosas da indústria dos media é grande. Tanto, que o fascínio do público pela família Murdoch levou a Netflix a apostar numa minissérie documental chamada “Dynasty: The Murdochs”. Estreou esta sexta-feira, 13 de março, para mostrar como o império mediático global acabou por transformar os filhos de Rupert Murdoch em rivais na luta pelo poder — inspirando até a famosa série “Succession”.
A série, realizada por Liz Garbus, tem quatro episódios (já estão todos disponíveis na plataforma) e baseia-se em milhares de páginas de documentos, emails e mensagens privadas — muitos nunca antes divulgados. O resultado é um retrato único dos bastidores da família que controla empresas como a Fox News, o “The Wall Street Journal” ou o “The Sun”.
Rupert Murdoch, hoje com 95 anos, e passou grande parte da vida a construir um dos grupos de media mais influentes do mundo. Ao longo de oito décadas, transformou jornais locais na Austrália numa rede global de televisão, imprensa e entretenimento capaz de influenciar eleições, governos e debates políticos em vários países.
Mas a série mostra também o lado mais controverso desta ascensão. Entre os episódios revisitados estão o escândalo das escutas telefónicas do tabloide britânico “News of the World”, que levou ao encerramento do jornal em 2011, e o papel da Fox News na polarização política nos Estados Unidos, sobretudo como principal aliado mediático de Donald Trump e dos movimentos mais conservadores.
Filhos criados para competir
O documentário mostra como Rupert Murdoch criou os quatro filhos mais velhos — Prudence, Elisabeth, Lachlan e James — num ambiente onde a sucessão sempre foi tratada como uma competição. O “The Independent” escreve que a série apresenta o patriarca como alguém que educou os filhos “menos como uma família e mais como gladiadores”, colocando-os constantemente em confronto pela sua aprovação e pelo controlo do negócio.
Entre os herdeiros, o nome mais associado à continuidade do pai é Lachlan Murdoch, de 54 anos, o terceiro filho mais velho da linhagem, hoje à frente da Fox e da News Corp. Já James Murdoch, de 53, surge como o grande dissidente da família, sobretudo por divergências políticas e editoriais com o império mediático do pai.
Segundo o “The Guardian”, essa rutura agravou-se quando James passou a criticar abertamente a linha editorial da Fox News e a forma como o canal influenciava o debate político nos Estados Unidos. Este ambiente de rivalidade familiar e luta pelo poder acabou também por inspirar e servir de base à série “Succession“, que estreou em 2018 na HBO Max e se tornou num enorme sucesso, misturando tensões familiares no meio da luta pela sucessão na empresa.
A batalha legal de milhares de milhões
Um dos momentos mais explosivos abordados nesta nova minissérie é a disputa judicial em torno do trust familiar, o mecanismo que decide quem controla o império após a morte de Rupert. O “The Guardian” explica que Rupert e Lachlan terão tentado alterar esse acordo para retirar poder aos restantes irmãos — um plano interno conhecido como “Project Family Harmony”. Na prática, o objetivo era garantir que a empresa continuaria sob uma direção política conservadora, blindando o império contra as visões mais moderadas dos outros herdeiros.
Esta guerra, que atingiu o seu ponto de ebulição entre o final de 2023 (quando Rupert anunciou a reforma) e setembro de 2024, transformou os tribunais do Nevada, nos Estados Unidos, num verdadeiro cenário de guerra. A polémica estalou quando ficou claro que o patriarca estava disposto a trair os próprios filhos para manter a linha editorial da Fox News intocável.
A batalha acabou por terminar com um acordo multimilionário no final de 2024. O “The Independent” recorda que o processo terminou com um pagamento de 3,3 mil milhões de dólares aos irmãos que ficaram de fora do controlo direto da empresa. Foi o preço a pagar para garantir que Lachlan ficasse com o trono sozinho, comprando o silêncio e a saída de James, Elisabeth e Prudence de uma gestão que se queria estritamente fiel à direita tradicional.
Numa entrevista ao “The Hollywood Reporter”, a realizadora Liz Garbus explicou que o documentário “não é apenas sobre uma família rica, mas sobre o poder que certas dinastias têm sobre a informação”. Segundo a cineasta, o documentário pretende “levar o público a pensar quem controla realmente os grandes grupos de media e que interesses pessoais podem estar por detrás das decisões editoriais”.
Garbus acrescenta ainda que o conflito familiar acabou por ganhar mais peso à medida que a série era filmada. Quando o projeto começou, o foco estava sobretudo na construção do império de Murdoch, mas os acontecimentos recentes dentro da família acabaram por transformar a história numa narrativa sobre rivalidades e divisões internas.
As primeiras críticas
A imprensa internacional já começou a reagir à série e as opiniões são variadas. O “The Guardian” descreve o documentário como um retrato minucioso do universo Murdoch, mas também como um catálogo pesado de nepotismo e manobras de bastidores.
O jornal sublinha que, mesmo quando os filhos entram em cena, continuam “muitas vezes ofuscados pela figura dominante do pai”. Na crítica publicada esta sexta-feira, dia 13, o jornal escreve que a série acaba por ser “um catálogo deprimente de nepotismo”, acrescentando que, tanto no documentário como na vida real, os filhos acabam frequentemente “ofuscados pelo pai”, a figura que domina toda a narrativa.
Já o “The Independent” considera a série um “excelente documentário”, destacando a quantidade de documentos e testemunhos reunidos para contar esta história. Para o jornal britânico, a conclusão resume bem o drama: Rupert Murdoch queria construir um negócio de família, mas acabou por criar um negócio que destruiu a própria família.
“Dynasty: The Murdochs” chega numa altura em que o futuro do império continua em aberto. A série mostra como decisões tomadas dentro de uma família podem ter impacto muito para lá da esfera privada, influenciando política, informação e a forma como milhões de pessoas veem o mundo.
Se quiser conhecer com mais detalhe os segredos desta família e a forma como foram passados aos criadores da série da HBO Max, “Succession” pode ler este artigo da NiT.
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