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Clarapy: a plataforma que veio “democratizar o acesso à saúde mental” em Portugal

Foi criada em setembro de 2023 e só estava disponível para empresas. A partir de julho será acessível a qualquer pessoa.
As consultas são online.

“A psicologia é apenas para os VIP.” A frase ouvida por Tiago Gomes durante o segundo ano da licenciatura teve um impacto profundo na sua vida. Apesar da frustração inicial e da crença de que isso não poderia ser verdade, ao refletir sobre o assunto, percebeu que era realidade em Portugal.

“Aquelas palavras ficaram gravadas em mim para sempre, criando uma sensação de inquietação. Percebi que tinha de fazer algo para mudar isso. Poucas pessoas conseguem pagar 90 ou 100€ por consulta todas as semanas. Muitos desistem de procurar ajuda psicológica, pois sabem que não têm capacidade financeira para a suportar”, começa por contar o psicólogo.

Quando concluiu os estudos, Tiago possuía os conhecimentos necessários na área da psicologia para concretizar o seu sonho, mas não sabia como criar uma empresa. Então decidiu fazer um mestrado em gestão. “Nesse momento, já tinha o meu propósito muito bem definido, sabia o que queria fazer, mas não sabia como colocá-lo em prática. Aprendi e, cerca de um ano e meio após ter começado a desenvolvê-la, consegui finalmente lançar a minha iniciativa.”

Em setembro de 2023, aos 22 anos, fundou a Clarapy, uma plataforma que pretende democratizar o acesso à saúde mental, tornando-a mais acessível, conveniente e eficaz. Até agora, só prestavam ajuda a empresas, mas em julho vão passar a estar acessíveis a toda a gente. Atualmente, prestam apoio psicológico a quase 300 funcionários de diversas empresas e têm várias em lista de espera.

Atualmente, os serviços de saúde mental disponíveis online incluem consultas, terapias, testes psicológicos, workshops e formações. Estes dois últimos podem ser presenciais e têm a duração de uma hora a hora e meia. Os temas mais abordados são o burnout, a depressão e o detox digital, mas existem outros disponíveis.

As empresas têm à disposição vários pacotes, com diferentes vertentes. O custo base por funcionário começa nos três euros por mês, valor que engloba algumas consultas e outros benefícios.

“Costumo dizer que com a Clarapy as instituições não têm desculpa para não cuidarem da sua saúde mental. O processo é simples: primeiro fazemos uma avaliação dos riscos psicossociais do local de trabalho em questão. Depois, dependendo dos resultados, é desenvolvido um plano de intervenção personalizado, tendo em conta as características apresentadas, e a cada três meses fazemos uma reavaliação, para verificar se as medidas implementadas estão a ter efeito.”

Na plataforma, é possível encontrar o psicólogo ideal para cada funcionário, mediante preenchimento de um questionário. Consoante as respostas, serão indicados três profissionais que se enquadram no perfil. No final, será o futuro paciente a selecionar um destes profissionais, com base na sua descrição.

“A seleção é feita com base em vários critérios, como preferências de género e idade, ou os desafios que já enfrentou na vida. Temos especialistas em diferentes áreas e é importante referir que a escolha não é definitiva. Apesar de acreditarmos que as relações estabelecidas serão eficazes, nem sempre as coisas são lineares e, por isso, é possível trocar de profissional.”

Além das consultas, a plataforma oferece outras funcionalidades, como o ClarapyChat ilimitado. Assim que os utilizadores são emparelhados com o psicólogo, têm acesso a uma sala de terapia virtual onde podem comunicar sobre qualquer assunto, a qualquer hora e em qualquer dia da semana, sem terem de esperar pela próxima marcação para discutir algo que tenha acontecido entretanto.

“A nossa grande vantagem é a conveniência. Não é necessário esperar semanas por uma consulta, basta escolher o profissional com quem se deseja trabalhar e agendar uma conversa com ele nas 24 horas seguintes, algo que seria impossível noutro sistema. E a melhor parte é que através do nosso serviço de telemedicina pode fazê-lo a partir do conforto da sua casa, por telefone ou videochamada.”

Neste momento, também está a ser testada a possibilidade de realizar consultas por mensagens. “Ainda existe um estigma que impede as pessoas de se sentirem à vontade. Assim, não precisam mostrar o rosto, nem falar, o que ainda é um obstáculo na hora de pedir ajuda. O objetivo é conseguir evoluir para outras formas de contacto, mas esta é uma forma mais tranquila de iniciar o processo.”

Segundo a OMS, o cuidado adequado com a saúde mental pode aumentar os níveis de produtividade em 30 por cento. “Ter uma equipa mentalmente saudável também pode resultar em mais criatividade e capacidade de inovação, menos absentismo, melhor atendimento ao cliente e mais envolvimento com os assuntos. Por vezes, as chefias consideram que o ambiente é ótimo —, e até pode ser —, mas as pessoas têm uma vida além do trabalho e quando entram pela porta não a conseguem esquecer. Isso também tem muita influência no seu desempenho; por isso, é importante cuidar daqueles que trabalham para nós”, conclui o fundador da plataforma.

Em julho, os serviços da Clarapy ficarão disponíveis para qualquer pessoa e não apenas para as empresas e os seus funcionários. Relativamente aos preços para o público, uma consulta irá custar 40€, duas 75€ e o pack de quatro sessões ficará a 140€, “valores bem mais baixos que os habitualmente praticados nas clínicas, onde os períodos de espera seriam longos.”

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