Apesar de sempre ter praticado desporto, nunca ponderou seriamente participar num IronMan 70.3, embora admirasse a dureza e beleza deste triatlo. Aos 58 anos e fruto de quatro décadas de consumo de tabaco, Alexandra Cunha Vaz debatia-se com uma doença pulmonar obstrutiva crónica e enfisema, o que não abriam sequer espaço a sonhar com a prova. A filha, Matilde Freitas, tinha outros planos para a mãe.
Depois de vários meses de insistência e de treinos duros, a dupla fez-se à estrada e, 18 de outubro, conquistou o improvável: completaram o IronMan 70.3 de Cascais. “Estar com a minha filha foi um sonho e se não fosse ela, nunca me tinha proposto a fazer esta prova”, explica a cascalense que confessa estar já a preparar-se para outras provas de 2026.
O Iron Man sempre foi uma fonte de inspiração para Alexandra. “Achava tudo um espetáculo e ficava sempre fascinada a ver as pessoas a passar por tudo aquilo, mas nunca na vida pensei que um dia poderia ser eu”, conta. A proximidade ao triatlo começou com os restantes membros da família. “O marido da minha filha estreou-se no triatlo e, logo depois de ter tido um bebé, a Matilde também começou a experimentar.” Alexandra acompanhava as provas, até que surgiu o desafio.
“Sempre disse que não faria, por saber todos os desafios que isso implicava e também por pensar que nunca seria capaz. Mas a Matilde puxou por mim e não aceitava o não como resposta. Lembro-me de me dizer que qualquer um pode fazer e foi esse o momento de mudança.” Os treinos começaram de forma gradual, embora o desporto já fizesse parte da sua rotina: há mais de 20 anos que pratica ioga e nos últimos anos começou a correr. E em 2023, decidiu também pôr fim ao vício do tabaco que a acompanhou durante 40 anos. “Os treinos de corrida tornaram-se numa ótima distração”, confessa.
Mas esses quarenta anos deixaram mazelas, como uma doença pulmonar obstrutiva crónica e um enfisema. “Sempre achei que esses fossem os meus maiores obstáculos, mas foi fascinante ver o corpo a readaptar-se aos poucos e a evolução do meu organismo. Essa foi a verdadeira vitória e uma lição que levo para a vida.”
A preparação para a prova foi tudo menos fácil. “Tive duas lesões a caminho. E o mais difícil é a consistência de treino e lidar com o ego. A pessoa acha que sabe fazer tudo bem, desde andar de bicicleta ou nadar e afinal não é bem assim. O triatlo ensina a lidar com as nossas frustrações e mantém-nos humildes.”

A primeira experiência nas águas livres foi “um desastre”, recorda. “Achava que sabia nadar e no final achei que me ia afogar.” Também a bicicleta foi um desafio, sobretudo por causa dos equipamentos específicos. “Acabei por cair algumas vezes e até cheguei a precisar de levar pontos.”
Apesar dos desafios, a idade nunca foi vista como um obstáculo. “É claro que a idade faz diferença, mas não nos priva de nada. Estou no fim da linha e é óbvio que os tempos e expectativas são outras. O mais importante é não nos compararmos com mulheres mais novas e com outra capacidade física.”
Depois de 10 meses de preparação, cruzou a meta do IronMan em Cascais com a filha. A prova tinha de ser concluída em oito horas e meia e Alexandra terminou em 7 horas e 57 minutos. “Foi uma conquista. Agora, o objetivo é superar-me este ano.”
Em curso está já a preparação para o Triatlo de Oeiras, que acontece a 9 e 10 de maio. Para o fazer com sucesso, arranjou um treinador privado, com treinos seis vezes por semana, num total de sete horas. Pelo caminho, a recuperação é essencial, com recurso a sauna, massagens e botas de compressão.
“Por exemplo, a minha filha treina mais de 10 horas por semana, por isso é sempre evitar comparações”, alerta. Os treinos são variados e combinam várias modalidades no mesmo dia. “Gosto que seja diferente e dinâmico. Move-me sair da zona de conforto.”
Outro fator importante foi a comunidade Road to Ironwomen, criada pela filha. “Estávamos há dois ou três dias da prova e encontrámos um casal de americanos. A mulher dizia que nunca faria porque já era avó e eu respondi-lhe que também era. Dei-lhe força para seguir o que queria. Nós conseguimos tudo o que nos propomos e é muito bom ver cada vez mais mulheres a fazê-lo.”
Atualmente, o grupo reúne mais de 100 pessoas e cerca de 25 mulheres preparam-se para o Iron Man 2026 em Cascais. Este ano, 38 mulheres iniciaram-se no triatlo. A inscrição pode ser feita através das redes sociais.
Carregue na galeria para ver imagens de Alexandra a completar a prova pela primeira vez, aos 58 anos.

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