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Ecografias emocionais estão na moda. Médicos alertam para exposição desnecessária do feto

A NiC falou com uma especialista que explicou os riscos associados a esta prática sem valor clínico. “Muitos casais podem ser induzidos em erro".

Cada vez mais casais optam por fazer as chamadas ecografias emocionais para conseguir “ver o bebé” antes do nascimento. Esta procura tem vindo a aumentar, sobretudo em clínicas privadas, e os resultados são amplamente partilhados nas redes sociais. Perante a crescente popularidade desta prática, a Entidade Reguladora da Saúde (ERS) emitiu um alerta sobre a realização destas ecografias, reforçando que este tipo de exames não podem ser feitos apenas para fins recreativos, nem realizados fora de um contexto clínico devidamente autorizado.

alerta, divulgado na passada terça-feira, 9 de dezembro, refere que as ecografias e ultrassonografias (exames que oferecem uma imagem diagnóstico para visualizar em tempo real órgãos e tecidos do corpo) só podem ser feitas em espaços de saúde registados e licenciados, por profissionais legalmente habilitados e com um objetivo clínico claro. Qualquer prática que se limite a mostrar ou gravar imagens do feto sem finalidade diagnóstica está fora da lei e pode dar origem a multas.

Estas sessões, chamadas de “ecografias emocionais”, mostram o feto em 5D (com alta qualidade de imagem, superior às que são habitualmente feitas nos hospitais), registam os batimentos cardíacos, fazem vídeos e fotografias e, a partir de determinado período gestacional, revelam também o género do bebé. No entanto, tudo isto acontece fora de um enquadramento médico e sem qualquer finalidade clínica. A NiT sabe que os valores para estas práticas rondam os 50€ (das 14 às 21 semanas) e 80€ (das 27 às 27 semanas).

Para perceber melhor o que está aqui em causa, a NiT falou com Sofia Figueiredo, ginecologista-obstetra do Hospital da Luz e da Maternidade Alfredo da Costa, ambos em Lisboa. A especialista afirma que estas ecografias não são feitas por médicos — mas sim por técnicos — e têm o objetivo de obter imagens “bonitas” do bebé. “Não servem para avaliar se o bebé tem malformações nem para qualquer tipo de diagnóstico. São ecografias recreativas, sem valor clínico”, explica.

Ao contrário das ecografias clínicas — realizadas em contexto hospitalar — as versões emocionais, em 3D, 4D e 5D, não substituem os exames recomendados durante a gravidez. “Uma ecografia 3D pode ser usada em contexto clínico para complementar o estudo 2D, mas com recomendação clínica”, sublinha a especialista.

Quanto aos riscos, a médica esclarece que não há evidência científica de danos concretos causados por ecografias emocionais. “Os ultrassons são considerados seguros, mas aplicam-se segundo o princípio da precaução, ou seja, os médicos devem usar a menor energia necessária para obter a informação. Não faz sentido expor o feto a níveis elevados de ultrassons sem finalidade diagnóstica”, diz.

Os benefícios dos ultrassons clínicos, por sua vez, superam amplamente os riscos, mas submeter o feto a exames desnecessários, como é o caso das emocionais, é diferente. É precisamente este ponto que preocupa os especialistas: a exposição desnecessária do feto a ultrassons apenas por motivos estéticos ou emocionais.

A médica admite que não é claro se o alerta da ERS resultou de uma queixa concreta, mas não exclui essa possibilidade. “Pode ter havido alguma reclamação associada a uma ecografia emocional. O documento não apresenta casos clínicos nem percentagens de lesões, mas reforça aquilo que já era conhecido.”

Outro ponto central do alerta prende-se com a publicidade. A ERS chama a atenção para a forma como estes serviços são promovidos, muitas vezes de forma agressiva e potencialmente enganadora. “Muitos casais podem ser induzidos em erro, acreditando que estão a fazer um exame médico, quando na verdade não estão”, alerta a Sofia Figueiredo. 

Em Portugal, as recomendações clínicas são claras. De acordo com a Direção-Geral da Saúde, numa gravidez de baixo risco devem ser realizadas três ecografias: às 12, 22 e 32 semanas. Estas são clinicamente relevantes para avaliar o desenvolvimento do bebé.

No setor hospitalar, a reação ao alerta é de alinhamento total: “No Hospital da Luz nunca fizemos ecografias emocionais”, garante a médica. “Somos prestadores de cuidados de saúde e realizamos apenas ecografias clínicas.” Para os profissionais, o documento da ERS não muda a prática, apenas a formaliza: “Para nós, médicos, este alerta vem reforçar aquilo que sempre dissemos às nossas pacientes: podem fazer, é vossa decisão, mas o importante é fazer as ecografias clínicas. Uma eco emocional não substitui uma eco clínica.”

Quanto ao impacto futuro, a especialista acredita que caberá à Entidade Reguladora da Saúde definir os próximos passos, mas sublinha que, do ponto de vista médico, a posição é clara. No fundo, o alerta vem reforçar uma mensagem simples: nem tudo o que parece um exame médico o é, e quando se trata de gravidez, a prioridade deve ser sempre a saúde — não a curiosidade superficial.

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