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Manuel Pinto Coelho: “O jejum é uma cirurgia sem bisturi”

O médico falou com a NiC sobre o estado de saúde dos portugueses. Sugeriu hábitos a adotar e abandonar, e apontou "mentiras" que a medicina moderna conta aos pacientes.

A ideia de que o colesterol é inimigo da saúde pode ser, afinal, uma das maiores ilusões da medicina moderna. Quem o diz é o médico Manuel Pinto Coelho, que não hesita em classificar décadas de investigação científica sobre o tema como um erro colossal. “O colesterol é uma arma de distração massiva”, conta em entrevista à NiT. “O verdadeiro problema é a inflamação, que vem muito do açúcar.”

A afirmação é apenas uma das várias posições polémicas (pelo menos para outros especialistas) defendidas pelo clínico, de 77 anos, quando analisa o estado atual da saúde dos portugueses. Para ele, o maior problema está na forma como a medicina continua a lidar com a doença: demasiado focada em tratá-la quando aparece e pouco empenhada em evitá-la.

“Há uma negligência forte da prevenção. Não se tem feito o que se pode fazer para evitar que a doença surja”, lamenta. Na sua perspectiva, o sistema de saúde concentrou-se sobretudo em identificar sintomas e prescrever medicamentos, em vez de ensinar as pessoas a proteger a própria saúde.

Nos últimos anos, porém, considera que algumas vozes começaram a desafiar esse paradigma. O próprio garante ter sido uma delas. “Em 2015 comecei a falar de jejum, das propriedades incríveis do sol, da história do colesterol e da importância do intestino”, recorda. Desde então, o debate tem vindo a ganhar mais força, embora ainda esteja longe de transformar a prática médica atual.

Isto porque “a medicina moderna afastou-se de um princípio antigo fundamental: a alimentação como base da saúde”, refere. Afinal, o médico grego Hipócrates, uma grande referência até hoje, dizia que o alimento é o nosso principal remédio. Afirma, contudo, que esta visão continua pouco presente na formação médica.

“O médico continua sem ter preparação para dar informação às pessoas sobre o alimento. É por isso que os nutricionistas têm sido cada vez mais procurados”, realça. A consequência, diz, é um sistema de saúde pressionado por um número crescente de doentes. Manuel Pinto Coelho defende que o objetivo deveria ser o inverso: reduzir a necessidade de recorrer aos serviços médicos. “Temos de ajudar as pessoas a serem gestoras da própria saúde e a evitar bater à porta do centro de saúde.”

Grande parte da prevenção está na forma como comemos. Nas consultas, o médico costuma dar um conselho simples: evitar os alimentos brancos que podem ser inflamatórios e são associados ao aumento de várias doenças. O que é que isto inclui? Farinha, arroz, pão, açúcar, batatas, lacticínios ou massas.

Para o especialista, a solução passa por regressar a um modelo alimentar mais próximo daquele que existia antes da agricultura intensiva e da indústria alimentar. “Devemos regressar ao Paleolítico, à forma como as pessoas comiam há cerca de 10.000 anos”, defende.

Este padrão alimentar privilegia carne, peixe, ovos, vegetais, fruta, legumes e frutos secos. “O macronutriente mais consumido era a gordura, a boa gordura dos animais”, realça, acrescentando que, na sua opinião, os atuais óleos vegetais e de sementes contribuíram para o aumento das doenças cardiovasculares.

Considera ainda que a própria pirâmide alimentar moderna pode ter contribuído para os problemas de saúde pública. Quando os Estados Unidos alteraram as recomendações alimentares nos anos 80, privilegiando cereais e grãos, abriu-se caminho para a “epidemia de obesidade” que se verificou nessa década (e que não tem vindo a abrandar).

O “maior mito” da saúde

Na sociedade atual, a ideia que considera mais enraizada (e errada) é a demonização da gordura. Manuel Pinto Coelho diz ficar surpreendido quando os pacientes chegam à consulta preocupados com os níveis de colesterol. “A primeira coisa que querem saber é como está o colesterol, o que é inacreditável”, afirma.

Para ele, este foco desvia a atenção do verdadeiro problema. “O que nos causa problemas é a inflamação e essa vem principalmente do açúcar e alimentos brancos”. A seu ver, o afastamento da natureza também tem contribuído.

A verdade é que a posição do médico sobre o colesterol já o envolveu em polémicas. Em novembro de 2025, por exemplo, soube-se que tinha recebido queixas na Ordem dos Médicos após ter dito que esta gordura poderia ser “um aliado” à saúde humana. Hoje, continua a apoiar o que disse. “É uma molécula fundamental para nós”, destaca.

Explica que o organismo produz naturalmente grande parte do colesterol de que necessita. “O fígado fabrica cerca de 75 por cento e o cérebro utiliza cerca de 25 por cento”. Por isso, considera ilógico tratá-lo como um inimigo. Para sustentar esta posição, Manuel Pinto Coelho cita investigadores que, anos mais tarde, criticaram as próprias conclusões sobre a relação entre colesterol e doenças cardiovasculares. “Foi a maior fraude científica”, diz.

Na sua perspectiva, a demonização desta gordura abriu caminho para a popularização das estatinas, medicamentos usados para reduzir os seus níveis. “Conseguiram criar a droga que mais vende no mundo”, lamenta. Ainda assim, reconhece que estes fármacos podem ter utilidade em situações específicas. “Nas situações agudas, as estatinas funcionam, mas apenas porque têm capacidade anti-inflamatória”, admite.

Insiste, também, que o colesterol desempenha funções essenciais para o organismo. “É o bisavô de todas as hormonas”, como as sexuais. Reduzi-lo excessivamente, alerta, pode ter consequências indesejadas. Além disso, acrescenta que tem um papel importante na vitamina D. “Se a célula não tiver níveis suficientes de colesterol na parede, não há vitamina D suficiente.”

A mudança na rotina alimentar

Outra das ideias defendidas por Manuel Pinto Coelho, e que contraria conselhos tradicionais, é a importância do jejum intermitente. Segundo o médico, os nossos genes evoluíram durante milhões de anos num contexto de escassez alimentar.

“Os nossos genes estiveram habituados à fome durante milhões de anos”, explica. Por isso, acredita que o atual hábito de comer várias vezes por dia pode ser prejudicial. A sua recomendação é simples: reduzir o número de refeições. “Duas refeições por dia chegam e sobram”, afirma. Para alguns, acrescenta, o jantar e pequeno-almoço podem ser dispensáveis, havendo apenas o almoço.

O próprio segue este regime e fica 18 horas seguidas sem comer, podendo apenas consumir alimentos durante as seis horas seguintes do dia. “O jejum é uma cirurgia sem bisturi”, afirma. “Ajuda a preservar tecidos saudáveis e a eliminar os danificados.”

Apesar de defender mudanças profundas na alimentação, o médico lembra que a saúde depende também de outros fatores básicos, entre eles o exercício físico e o sono. “Se treina, mas não dorme sete horas seguidas e bem dormidas, tem poucas probabilidades de chegar a velho”, garante.

Manuel Pinto Coelho, que atualmente tem a sua própria clínica em Lisboa, e que de dedica a medicina antienvelhecimento, dá também três conselhos e três hábitos a abandonar. Além do exercício físico, insiste numa alimentação mais próxima da que os humanos tiveram durante grande parte da História e numa redução significativa da quantidade de comida ingerida. “Comam pouco. Quanto menos, melhor.”

Também desafia uma das frases mais repetidas sobre a nutrição: a importância do pequeno-almoço. “Arquivem a ideia de que um bom dia tem de começar com um bom pequeno-almoço.” Outra recomendação é parar de comer antes de se sentir completamente cheio.

Estas mudanças simples, garante, podem ter um impacto profundo na saúde pública. E deixa também uma reflexão sobre o papel do intestino. “Um intestino saudável pode ajudar na depressão mais do que um antidepressivo.”

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