Numa noite de cinema caseira, quando o filme ainda vai a meio, olhamos para o lado e vemos que o nosso companheiro já dorme profundamente — se há 10 minutos ou uma hora, não sabemos. Chegamos a duas conclusões possíveis: culpamos a obra escolhida ou, se acontece frequentemente, podemos sentir que é falta de interesse da pessoa.
Porém, sentir bocejos frequentes ou a constante vontade de fazer uma sesta quando está perto do parceiro, pode não ser um mau sinal, nem sequer significar que este a acha aborrecida ou desinteressante. Na verdade, é uma resposta natural do cérebro e há vários estudos que apontam que, quanto mais forte o vínculo, maior a sensação de sono que temos ao lado da pessoa.
Tudo se deve às hormonas. Quando estamos próximos de alguém especial, acontece a libertação de uma hormona chamada de oxitocina, “associada a questões de vínculo, confiança e segurança”, segundo o sexólogo e terapeuta de casal Fernando Mesquita. Conhecida como “a hormona do amor”, ajuda o organismo a interpretar o ambiente como seguro.
Nesta primeira fase, a sensação de segurança ativa o sistema nervoso parassimpático, responsável por colocar o corpo em estado de relaxamento. Aquele sensação de se estar alerta desaparece para entrarmos em repouso.
Isto acaba por reduzir os níveis de outra hormona, o cortisol, mais associado ao stress. “Se não estamos stressados, temos uma maior sensação de confiança, há uma maior tranquilidade. Há uma maior liberdade para dormirmos em sossego”, acrescenta Fernando.
No entanto, apesar de várias análises mostrarem “hipóteses que apontam para a veracidade desse argumento”, de que pessoas apaixonadas dormem mais facilmente, e de forma mais profunda, quando estão juntas, o especialista deixa claro que, cientificamente, “não há nada que comprove isso”, por não ser algo linear, nem algo que aconteça a todos os casais.
Para o terapeuta, contudo, é seguro afirmar que “o facto de estarmos perto de alguém de quem gostamos realmente ajuda a regular o sistema em termos emocionais”, também a nível da ansiedade e da tensão. Todos aqueles fatores que, geralmente, acabam por interferir na capacidade de sono, deixam de ser um entrave.
Quando não acontece, há algo errado?
À primeira pergunta que as vítimas de insónias levantam, o sexólogo afirma que “não é necessariamente um problema”. “Não podemos dizer que todas as pessoas que estão apaixonadas vão ter boas noites de sono”, frisa. Porém, explica que, no contexto da terapia em casal, quando uma relação está numa fase mais estável, muitas vezes os membros do casal afirmam que não têm tanta dificuldade e que se sentem mais relaxados.
“Quando estão mal, por outro lado, ou se há conflitos por resolver, vão ter mais dificuldade em adormecer. Estão mais ansiosos e isso vai dificultar na hora de ir para a cama. Não é linear, mas há vários fatores que podem ajudar.”
À NiT, explica ainda que há outras associações entre a nossa relação com alguém e o nosso sono. “Outros estudos mostram que há uma tendência para existir sincronização em termos fisiológicos. Quando estamos a fase REM, de sono mais profundo, muitas vezes estamos sincronizados com os nossos parceiros. O mesmo acontece com a frequência cardíaca”, diz.
No caso da sonolência, não é propriamente uma novidade, “mas as redes sociais têm ajudado na divulgação da teoria” e levantado várias dúvidas entre as pessoas que se cruzam com ela.
“Acaba sempre por ser um tema quando as coisas não correm bem durante o sono”, continua. “Se um dos elementos do casal tiver noites mais agitadas, com insónias, ou se ressonar, é um motivo de discórdia. Se dorme muito e vai para a cama mais cedo, pode haver aí um desentendimento”.
E conclui: “Em termos de intimidade, a questão de duas pessoas dormirem juntas pode ser muito flexível. Há casais que estão numa relação saudável, mas que optam por dormir em camas separadas. É a dinâmica deles.”

LET'S ROCK







