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Doença rara está a voltar ao País. Há médicos que culpam os imigrantes, outros discordam

Diogo Vassalo pensava ter uma simples dor de garganta, mas começou a não conseguir respirar. Descobriu uma epiglotite aguda: "O médico perguntou-me se pedia Uber Eats".

Começou por ser apenas uma garganta arranhada, daquelas que muitos associariam a uma constipação ou a uma irritação passageira. “Achei que era algo normal e comecei a tomar comprimidos para a garganta”, conta Diogo Vassalo à NiT. Mas, em poucas horas, percebeu que havia qualquer coisa de diferente. “Durante a noite senti que tinha uma bola de golfe aqui dentro e respirar tornava-se cada vez mais difícil”, recorda.

Na manhã seguinte, em meados de junho, o agente de jogadores de futebol, que vive em Lisboa, conseguiu marcar uma consulta de urgência com um otorrinolaringologista. Esperava sair do consultório com uma receita para antibióticos ou um tratamento para uma infeção comum. Em vez disso, acabou por ser encaminhado para o hospital. “Quando me fez o exame, disse-me logo que ia ficar internado. Fui imediatamente para as urgências.”

Através da nasofibroscopia — um exame que permite observar a garganta e a laringe com recurso a uma pequena câmara — o especialista percebeu que Diogo sofria de uma epiglotite aguda, uma infeção rara, mas potencialmente grave, que pode provocar um inchaço acentuado da região acima das cordas vocais.

Segundo o otorrinolaringologista David Dias, a doença afeta uma zona chamada supraglote, onde se encontra a epiglote. Quando essa estrutura inflama, pode aumentar rapidamente de volume e reduzir o espaço por onde o ar passa até aos pulmões. “Como fica imediatamente acima das cordas vocais, a principal preocupação é que deixe de existir espaço suficiente para respirar”, explica o especialista.

Foi precisamente esse risco que levou ao internamento imediato de Diogo. Ainda antes de conhecer o diagnóstico definitivo, realizou análises ao sangue e mais exames para excluir outras hipóteses. Pouco depois, os médicos confirmaram que se tratava de uma epiglotite aguda e iniciaram de imediato o tratamento.

“Não me deixaram sair porque tive de levar antibióticos e corticoides diretamente na veia. Disseram-me que nestes casos tem de ser o mais rápido possível.” O tratamento consiste precisamente na administração de medicação intravenosa e na vigilância contínua do doente. David Dias, que não está relacionado ao caso de Diogo Vassalo, explica que o perigo não está apenas na infeção em si, mas na rapidez com que o inchaço pode evoluir.

Além do edema, podem acumular-se secreções na região da epiglote, aumentando ainda mais a obstrução da via aérea. Nos casos mais graves, a pessoa pode deixar de conseguir respirar ou até engolir alimentos, razão pela qual o internamento é quase sempre necessário.

Durante o tempo que permaneceu no hospital, Diogo teve apenas febre ligeira e foi melhorando à medida que a medicação fazia efeito. Apesar disso, admite que ouvir a palavra “grave” foi suficiente para o deixar apreensivo. “Quando me disseram que era uma situação grave, fiquei com algum transtorno. Depois, a partir do momento em que comecei o tratamento, fiquei tranquilo.”

Ao fim de cerca de 36 horas recebeu alta hospitalar. Continuou o tratamento em casa com antibióticos e corticoides durante uma semana e recuperou sem complicações. “Disseram-me que, se sentisse alguma piora, tinha de voltar imediatamente ao hospital. Felizmente, não aconteceu.”

As opiniões opostas sobre o crescimento de casos de epiglotite 

Apesar de atualmente ser considerada uma doença rara, a epiglotite já foi muito mais frequente. David Dias explica que, durante muitos anos, afetava sobretudo miúdos, mas a introdução da vacinação contra uma das principais bactérias responsáveis pela infeção fez diminuir drasticamente o número de casos.

Hoje, surge sobretudo em adultos e nem sempre são provocados pela mesma bactéria. Existem outros microrganismos, incluindo alguns associados à pneumonia, que também podem causar esta infeção quando encontram condições favoráveis para se desenvolver.

Ao contrário do que acontece com uma gripe ou uma constipação, a epiglotite não se transmite através das gotículas respiratórias. O especialista explica que a bactéria pode fazer parte da flora normal da garganta ou ser adquirida através do contacto com alimentos, tornando-se um problema apenas quando existe uma quebra das defesas do organismo que permite a sua multiplicação.

Durante o internamento, Diogo ouviu alguns profissionais de saúde comentarem que tinham recebido vários doentes com o mesmo diagnóstico nos últimos tempos. “O meu médico perguntou se eu andava de Uber ou pedia Uber Eats. Ele disse que tem vários colegas com os mesmos casos em mãos.”

“É uma doença muita rara, mas tem sido mais frequente ultimamente e ele explicou-me o porquê. Quem vem de fora não tem que ter as mesmas vacinas que nós e não são obrigados a tal. Então, acabam por espalhar vírus. Uma conhecida minha também foi internada dois dias depois”, comenta Diogo.

O especialista David Dias, contudo, faz questão de esclarecer que a ligação entre o aumento de casos e a imigração não tem suporte científico. “Não há provas de que ambos estejam relacionados. É uma teoria que já ouvi ser referida, mas não existe evidência que permita estabelecer essa ligação.”

Embora uma simples dor de garganta não seja motivo para alarme, o especialista deixa um aviso importante. Se o paciente deixar de conseguir engolir alimentos, desenvolver uma voz abafada ou começar a sentir dificuldade em respirar devido à garganta fechada, deve procurar rapidamente um serviço de urgência ou ser observada por um otorrinolaringologista.

O diagnóstico faz-se através da nasofibroscopia e, na maioria dos casos, o tratamento com antibióticos intravenosos e vigilância hospitalar permite controlar rapidamente a infeção. Apenas em situações muito graves é necessário recorrer a uma traqueostomia temporária — uma abertura na traqueia para garantir a passagem do ar enquanto o inchaço diminui.

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