Todas as noites, no final dos turnos como empregado de mesa em Seattle, Robert Angel juntava-se aos colegas de casa para jogar um pequeno jogo feito à mão, apenas com papel e caneta. “A verdade, é que perdíamos a noção do tempo e ficavamos a jogar toda a noite”, recorda Rob Angel à New in Cascais. Corria o ano de 1982 quando percebeu que aquela ideia podia dar origem a algo maior.
Dois anos depois, decidiu fazer vários exemplares do jogo, à mão, e começou a vendê-los porta a porta. em 1986, já era um dos jogos mais vendidos (e jogados) nos EUA. Nascia assim o Pictionary, jogo de tabuleiro que está guardado nos armários de quase todas as casas. Aos 67 anos, Angel já não está envolvido no negócio, que vendeu por perto de 30 milhões de euros, mas trocou o país natal pelo sol de Cascais, onde mora desde 2023.
Milionário graças à ideia genial, o norte-americano decidiu, desde então, dedicar-se à família, à filantropia e a novos projetos, como o livro “Game Changer” e um guião inspirado na sua própria história.
Sobre Cascais, só lhe sobram elogios. “Sinto-me em casa”, confessa. Nesta entrevista à New in Cascais fala sobre o percurso improvável que começou com folhas de papel numa casa partilhada, os bastidores do sucesso global e a vida tranquila que escolheu construir no concelho.
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Como é que nasceu o Pictionary?
Durante os primeiros anos de faculdade em Seattle e até arrancar com a empresa, trabalhei como empregado de mesa e esse foi efetivamente o meu último emprego, que durou cerca de nove anos. Nessa altura, tinha 22 anos e todas as noites, depois dos nossos turnos, eu e os meus colegas de casa juntávamos a jogar um pequeno jogo que criamos. A verdade, é que perdíamos a noção do tempo e ficavamos a jogar toda a noite. Estávamos em 1982 e pensei que este seria um ótimo jogo para as famílias, mas estávamos numa era onde não havia internet e nem tínhamos como descobrir como dar os primeiros passos. A verdade é que a ideia acabou por ficar na gaveta. Entre todo o processo, viajei durante cinco meses para a Europa, mas nunca deixei de pensar nisto. Dois anos depois, em 84 foi o momento que parei e decidi que tinha de ser agora. Criei cerca de 100 unidades à mão e durante 14 meses fomos jogando e decidindo que regras faziam sentido. Foi um processo muito leve e focado na tentativa e erro. Depois de os ter feito, com a ajuda dos meus amigos e mais tarde sócios do Pictionary, comecei a vender os jogos de porta em porta. Ia a todo o lado, desde lojas a farmácias. Em apenas dois anos tornamo-nos o jogo mais vendido dos Estados Unidos da América em em quatro anos, o mais vendido a nível mundial. Foi o começo de um sonho.
Não tinha experiência nenhuma em jogos de tabuleiro. Qual é que acha que foi o segredo do sucesso do jogo?
No fundo, o que queria encapsular com o Pictionary era a emoção que nós tínhamos todas as noites enquanto jogávamos. Chegávamos em casa cansados depois de um dia de trabalho e a partir do momento que jogávamos, tudo isso parecia não importar tanto. Por isso, acredito que esse fosse a nossa diferenciação, querermos acima de tudo trazer emoção e leveza à casa das pessoas e não apenas mais um jogo de tabuleiro. Além disso, estava a criar um projeto com dois amigos e as nossas valências sempre se complementaram muito. Demoramos anos a entender isto, como é óbvio, mas todas as nossas discussões sempre foram associadas ao negócio e não à nossa amizade. Mantemos contacto até hoje.
Como é que o jogo evoluiu a partir dessa ideia simples, apenas com papel e caneta?
Nunca seguimos um manual no processo da criação, por isso foi tudo muito através da tentativa e erro. Por vezes, alguém acabava por estar muito tempo a desenhar e foi aí que decidimos que devíamos colocar um temporizador, senão o jogo durava horas a fio. Mais tarde, decidi que devíamos incluir palavras para que se pudesse desenhar, então li todo o dicionário e experimentamos todas as palavras possíveis. O meu colega tratou de todo o gráfico e íamos jogando até decidir que estava como tínhamos idealizado.
Foi difícil tomar a decisão de vender a sua criação?
Há pessoas que acham que vendi a ideia, pouco tempo depois de se tornar um sucesso, mas não é verdade. Trabalhei durante 18 anos e como na altura precisamos de registar e licenciar a marca, rapidamente o Pictionary tornou-se maior do que nós, mas queríamos manter a essência e certificar que estava tudo sob rodas. Depois de quase 20 anos, estava na hora de me afastar e viver a minha vida.
Como é que é a vida depois de uma experiência dessas?
Depois de vender queria viver nos meus termos, ver os meus filhos crescer, viajar e focar-me nos projetos de filantropia. Sempre estive envolvido nesse tipo de projetos, no entanto essa valência cimentou-se a partir de 1988, quando um amigo morreu de SIDA. Ele estava envolvido neste projeto que ajuda jovens afetados pela doença desde os 16 anos e decidi juntar-me. Estive envolvido até 2010 e era uma enorme alegria para mim estar com aqueles miúdos, que por vezes não tinham mais nada. Esta foi uma grande parte da minha vida e qual me queria focar exclusivamente. No entanto, fora disso, escrevi um livro, “Game Changer” e participei em várias conversas e mentorias para novos empreendedores. É muito importante para mim dar a conhecer a minha história e motivar outros a fazer o mesmo. Neste momento, acabei de terminar um guião para que no futuro consiga contar a minha história num formato televisivo. A nível de filantropia, estive focado nos últimos anos, com ajuda do governo local, a ajudar a resolver a crise de água que se vive em Ruanda. Juntos construímos uma nova estrutura que dá acesso a água potável às famílias. É de loucos pensar, mas os miúdos não iam à escola porque percorriam vários quilómetros para procurar água para as suas famílias e nem era de qualidade. Depois de estabelecer este processo, estou à procura de novos projetos e ajudar nesse sentido.
E como é que chegou até Cascais?
Precisamente por causa do Pictionary. Nessa altura, fiz várias viagens de negócios e um dos meus amigos de Seattle morava aqui. A verdade é que me senti automaticamente à vontade e em casa. Por outro lado, sempre quis viver na Europa e novamente, era uma ideia que ficava perdida. Acabei por fazê-lo há cerca de três anos. O que mais gosto aqui, é sem dúvida o tempo ameno e o sossego da natureza. Ainda dou por mim a passear e a sorrir por estar aqui. Além disso, as pessoas são muito calorosas. Antes quando me perguntavam onde estava eu respondia, na casa em Cascais, agora simplifico para estar apenas em casa e já todos sabem perfeitamente o que quero dizer.
Como é a sua rotina por aqui? Até agora, tem algum espaço favorito em Cascais?
A minha rotina resume-se em almoços com amigos e meditação. Já relativamente ao restaurante, é o Bougain em Cascais, uma vez que foi o primeiro que frequentei quando cheguei a Portugal e fiquei surpreendido por ser um pequeno recanto no meio da vila. Pouco tempo depois fiquei amigo do dono e por isso continua a ser um dos meus locais favoritos de Cascais.
Nunca pensou em voltar ao mundo dos jogos de tabuleiros e criar outros negócios?
Nessa altura foi difícil para muitas pessoas compreender que trabalhei quase 20 anos no Pictionary e que foi efetivamente uma grande parte da minha vida. A ideia de muitas pessoas é que devia voltar a investir em mais ideias e tentar reproduzir o mesmo fenómeno, mas nunca foi a minha ambição. O tempo começou a ser muito importante para mim e quando se é empreendedor, o tempo deixa de te pertencer. Não queria voltar a essa vida.

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