Telemóveis, máquinas de café, loiça e um microondas foram apenas alguns dos objetos mais insólitos que os voluntários do Movimento Claro retiraram da Baía de Cascais nos últimos meses. Desde 2021 que a associação faz limpezas subaquáticas na região e encontra um “pouco de tudo” perdido no fundo do mar.
“Também já encontrámos carrinhos de supermercado, trotinetes e bicicletas”, conta Teresa Vale, uma das fundadoras do projeto. “Houve um ano em que encontrámos uma pistola e munições. Isso foi o mais estranho de sempre”.
Os telemóveis estão entre os objetos mais frequentes e a grande maioria “não está recuperável”. Noutros casos, porém, há quem tenha sorte. O grupo já chegou a recuperar aparelhos que ainda ligavam.
“Às vezes, os pescadores já sabem que vamos fazer limpezas, então muitas vezes até já nos dizem para termos atenção a uma determinada zona porque deixaram cair alguma coisa e não conseguiram recuperar”, explica. “Por vezes, há armadilhas e até âncoras que acabamos por recuperar.”
As limpezas subaquáticas estão integradas no projeto conhecido como “Mergulha por Cascais” e tiveram início em 2021. Desde então, decorrem anualmente entre abril e o início de outubro, aos fins de semana.
“Depende um pouco de como é que estão as condições meteorológicas e do mar, mas normalmente é este o período”, explica. “Durante o inverno, não o conseguimos fazer porque nem o mar nem o tempo o permitem.”

Por norma, cada limpeza subaquática conta com entre 20 a 26 mergulhadores certificados. Depois, há voluntários que prestam apoio com pranchas de stand-up paddle (SUP) e também em terra.
“Os voluntários nas pranchas ajudam a levar o lixo até à areia e fazem um bocadinho o perímetro de segurança para avisar os barcos de que há mergulhadores na água”, explica. “Os voluntários em terra fazem a contagem, a separação e a pesagem do lixo.”
Um dos trabalhos essenciais em terra é também perceber se não existem animais marinhos presos no lixo. Teresa explica que é habitual encontrar estrelas-do-mar e polvos, sobretudo presos em armadilhas de pesca que se perderam.
A próxima limpeza subaquática está marcada para este sábado, 26 de setembro, mas já tem as vagas esgotadas. Teresa explica que o equipamento de mergulho e as pranchas de SUP são limitados, mas quem tiver os próprios pode sempre participar.
Ainda assim, é também possível ficar na lista de espera. Isso porque pode haver alguma desistência de última hora que permita que outros interessados participem. Se tiver interesse, basta preencher um formulário online. A última limpeza do ano vai acontecer a 10 de outubro.
No âmbito do projeto, a associação também oferece bolsas de estudo para residentes de Cascais, entre os 18 e os 30 anos. Conta com o apoio de entidades locais, como a Junta de Freguesia de Cascais e Estoril e a Câmara Municipal.
“Se forem um dos vencedores, fazem o curso de mergulho connosco. Comparticipamos 80 por cento do valor”, explica Teresa. Em troca, os alunos precisam de participar nas limpezas subaquáticas.
View this post on Instagram
Tudo começou há quase 10 anos
A história do Movimento Claro é mais antiga do que as limpezas aquáticas. Tudo começou em março de 2018, quando três amigas — Teresa, Carolina Gonçalves e Luísa Mandacaru — se juntaram para começar a promover um estilo de vida mais consciente.
“Fizemos uma campanha para acabar com as palhinhas de plástico em Cascais”, recorda Teresa. “Baseámo-nos numa que estava a acontecer em Inglaterra e tentámos trazer esse movimento aqui. No fundo, contactávamos alguns restaurantes da zona e tentávamos persuadi-los a não usarem palhinhas de plástico.”
As três amigas davam alternativas aos estabelecimentos e até tinham parcerias com projetos sustentáveis. Mais tarde, o projeto começou a evoluir e a contar com limpezas de praia abertas ao público.
“Começámos a ganhar um pouco de atenção e a Junta de Freguesia entrou em contacto connosco nesse período e tomou conhecimento do que é que estávamos a fazer”, partilha. “Percebeu que também a podíamos ajudar não só a acabar com as palhinhas de plástico, mas a retirar os plásticos descartáveis dos edifícios da autarquia.”
Três meses depois, o projeto evoluiu e foi designado como associação juvenil ambiental. Atualmente, após a mudança de Luísa para o estrangeiro, o Movimento Claro é liderado por Teresa, Carolina e Inês Pereira, entre os 28 e os 32 anos.
Ao longo do ano, há sempre atividades a decorrer, que podem variar consoante a época. As limpezas de praia, por exemplo, acontecem com maior frequência no inverno. Isto porque, durante a época alta, Teresa explica que os municípios tendem a limpar o areal com maior frequência.
“No verão, às vezes também fazemos, mas é mais a pedido porque há empresas que querem fazer como uma atividade de team building”, explica. “Nos meses mais quentes, este género de atividades fazemos mais nas ribeiras porque elas secam e temos a oportunidade de limpar com maior facilidade.”
Carregue na galeria para ver algumas fotografias das limpezas subaquáticas feitas por voluntários do Movimento Claro.







